quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quarteto Novo - Quarteto Novo (1967)



Primeiro e único álbum gravado pelo grupo em 1967 e que hoje se transformou numa lenda, já que foi, senão o primeiro, um dos supergrupos da historia da musica que realmente desbravou para fazer a revolução dos ritmos, quebrando barreiras culturais. Por sinal, nunca antes esse tipo de fusão tinha sido feito tão perfeitamente e com tanto virtuosismo. A característica principal é mesmo a mesclagem de ritmos aparentemente distintos como o nordestino e o jazz. Alias unir ritmos como: Frevo, forró, baião, xote e xaxado ou mesmo o choro com as harmonias intricadas do be-bop Jazz e da Bossa nova continuou a ser uma constante dentro da carreira de seus integrantes. Sem falar que o disco se torna até hoje moderno tendo influenciado gente como Egberto Gismont.
Tudo começou em 1966 quando o trio que acompanhava o cantor Geraldo Vandré "compositor depois perseguido pela ditadura militar por causa da musica 'Caminhando e cantando' e com 'Disparada' , venceu o II Festival da TV Record em 1966, acompanhado do Trio Novo", começou a receber convites para tocar com outros cantores em festivais no Brasil e no exterior como Edu Lobo e Jair Rodrigues. Como era preciso mais um musico para fortalecer os arranjos, Airto Moreira, líder do trio, tratou de convocar seu amigo albino que havia tocado com ele no grupo Trio Sambrasa e que antes disso já havia gravado um disco com Conjunto Som Quatro que era um projeto de Bossa Nova. Ai o Trio, que tinha alem de Airto, o violonista Heraldo do Monte e Theo de Barros "co-autor das musicas Disparada e Caminhando e Cantando, passou a se chamar Quarteto Novo por causa da entrada de Hermeto Pascoal.
Outro fato não confirmado é que quando Geraldo Vandre foi classificado para tocar no II Festival o Trio Novo já estava designado a acompanhar Jair Rodrigues que também cantaria neste evento. Mas devido a um contrato com a Rhodia eles acabaram acompanhando este cantor normalmente só que com outra formação: Aires na Viola, Manini na Bateria e Edgar Gianullo no Violão. Ou seja, havia então dois Trios Novos no festival. E foi ai que Airto decidiu colocar o mult-instrumentista Hermeto, e assim diferenciar as coisas.
Não demorou muito, com alguns contatos e sugestões de pessoas do meio artístico, conseguiram um passe livre para começar a gravar um Lp pela EMI-Odeon. Que se tornou uma relíquia ainda mais depois que Hermeto Pascoal se tornou uma figura conhecida internacionalmente. Um ex-integrante, Heraldo do Monte, considerado hoje um dos 10 melhores guitarristas do Brasil, considera este disco um dos melhores dentre tantos que já ouviu. Heraldo inclusive teria negado um convite para integrar um dos maiores nomes do Fusion, o grupo Wheater Report nos anos 70 só porque não queria ficar longe do Brasil e "pingar de hotel em hotel". Foi nessa época por sinal que Hermeto começou a aprender a ler partitura com Heraldo. Hermeto sempre tinha milhares de combinações de ritmos e sons na cabeça e para "não perder tantas idéias boas", devido sua deficiência visual, não desgrudava o rosto do papel escrevendo suas composições. Inclusive, o disco do Quarteto Novo, é marcado como o disco que levou a primeira composição de Hermeto a ser gravada.
O disco na época foi premiado com o Troféu Roquette Pinto e também o Troféu Imprensa. Mesmo depois disso Heraldo, Airto, Hermeto e Theo viajaram pelo Brasil acompanhando Vandré como sendo um grupo exclusivo de Vandré gravando no seu disco de 1968 chamado "Canto geral", se apresentando nas TVs Record e Bandeirantes. Depois, acompanhando a cantora Marília Medalha e Edu Lobo, sendo que com este ultimo, no III Festival de Musica Popular da Record, novamente, graças ao serviço instrumental do Quarteto Novo, a musica "Ponteio" se torna campeã naquele festival, como havia acontecido antes com "Disparada". Depois disso Edu Lobo gravou a musica junto com o Quarteto Novo e com eles excursionaram pela Europa. E no inicio de 69 o grupo se separou, sendo que Airto e Hermeto foram tentar a sorte nos EUA, junto com a esposa de Airto a cantora Flora Purim. Airto seria convidado a participar de um dos discos mais importantes da história do Fusion, Bitches Brew de Miles Davis, considerado o maior nome do Jazz em todos os tempos. Em principio, Airto convidou Hermeto para fazer o arranjo de seu disco, e logo depois o apresentaria a Miles Davis, que se surpreendeu com a musicalidade de Hermeto. Miles gravou duas canções suas: " Igrejinha" e "Nenhum Talvez" que estão no disco Miles Davis Live.
Curiosamente muitos anos depois saiu um disco chamado Quarteto Novo - Supersucessos que muita gente comprou achando que se tratava do grupo original, quando na verdade se tratava de um grupo vocal cantando temas de Milton Nascimento e Chico Buarque. O disco chegou até a sair no exterior, mas os integrantes originais não quiseram esquentar a cabeça com processos judiciais para defender o nome do grupo. Existe tambem uma lenda de que este disco teria até mesmo influenciado os Beatles a usar violas em seus discos !!
O ovo, Alem de ser a primeira musica de Hermeto a ser gravada, ela já mostra a característica do que se tornaria a musica deste grande mestre, que nessa época ainda não era chamado de Bruxo, mas já estava criando o que seria uma das perolas do choro, que na verdade é uma espécie de baião-maxixe. O maxixe na verdade é uma espécie de tango brasileiro que foi muito popularizado por Ernesto Nazareth nos anos 30. Aqui logo se nota que o entrosamento do grupo parece ser uma coisa meio hipnotizante, mesmo com recursos simples de estúdio que naquele tempo havia, eles conseguem tocar com um sincronismo excelente dando vida às canções. Algum tempo depois Hermeto diria que "O ovo" tem uma letra que nunca foi lançada provavelmente escrita por Vandré. Uma das partes mais surpreendentes é quando se ouve um "vai" bem alto no meio da canção anunciando uma empolgação depois do tema principal e caindo no improviso.
Fica mal com Deus, essa musica foi gravada depois com letra por Vandré e tem, como na maioria das musicas, um destaque para a Flauta de Hermeto que esta casando perfeitamente com os acordes dissonantes de Heraldo. A quebradeira de Airto também se destaca já que a melodia após o tema é de difícil assimilação. Os improvisos são um lindo duelo do violão solo de Heraldo com a Flauta de Hermeto. Um dos melhores momentos sem duvida.
Canto geral, Segunda canção de Hermeto feita com Vandré durantes ensaios do Quarteto Novo com o cantor. Aqui há inicialmente um trabalho vocal apenas para embelezar a canção no inicio. Segue a linha característica de ritmos complicados, mas fáceis de se ouvir como o choro. A químico entre os músicos torna uma canção que poderia ser pura melancolia em algo muito inteligente e sofisticado.
Algodão, de Luiz Gonzaga, virou um "Baião-Bossa" experimental com improvisos interessante e cheio de criatividade. Ao eives do “baião de dois tradicional”, sanfona, triangulo e zabumba, há Flautas com melodias bem elaboradas, violões ágeis, e uma percussão marcando o tempo. É como se estivéssemos no meio do cerrado, embaixo do sol quente ouvindo um som que abrisse nossa mente e nos transportasse para outro lugar fresco.
Canta Maria, Sendo Vandré o maior “padrinho” do grupo naquele momento era até natural que para o disco eles gravassem mais canções suas. Naquele tempo sendo músicos ainda desconhecidos do grande publico, havia uma timidez latente para que se externasse toda a criatividade dento deles. Na década seguinte essa criatividade transbordaria em seus trabalhos individuais de maneira espantosa. Nessa faixa, o grupo prioriza o feeling da canção e enobrece mais ainda uma canção simples com um arranjo com a característica dos músicos.
Síntese, Composição de Heraldo, tem um andamento bem na linha da Bossa Nova e melodia sofisticada, mas com intenção de soar um baião lento. Por sinal essa era uma das maiores preocupações do grupo segundo o próprio Heraldo. Eles firmaram um compromisso de que o som do grupo fosse bem brasileiro. Theo acompanha com maestria fazendo um ótimo duo com Heraldo.
Misturada, é outro ponto alto do disco que dá destaque para a bateria de Airto, mostrando por que é até hoje, um dos grandes nomes da percussão brasileira ao lado de Nana Vasconcelos. A Flauta de Hermeto chora como se tivesse vida própria. Uma melodia com cadencia de acordes menores inspiradíssima.
Vim de Sant'Ana, é um excelente momento do disco, com improvisos e vôos individuais de seus integrantes. Começa com o piano de Hermeto fazendo texturas de Bossa Nova mas na linha mais encrencada como Marcos do Valle e Azimutt. Os solos de Heraldo são rápidos e ele arrisca até mesmo uns bends. Airto esta infernal quando é a vez da bateria. É sem duvida um momento inesquecível da musica brasileira. E o fato do disco ter se tornado “Cult” depois de tanto tempo aqui e fora do Brasil já prova por si que o Quarteto Novo estava anos luz a frente da sua época.
Resumindo, uma obra mais do que obrigatória.

01.O ovo
02.Fica mal com Deus
03.Canto geral
04.Algodão
05.Canta Maria
06.Síntese
07.Misturada
08.Vim de Sant'Ana

http://rapidshare.com/files/238331655/Quarteto_Novo_-1967-_Quarteto_Novo__320_.zip

6 comentários:

Big clash disse...

Hoje vou tomar uma nesta espelunca, a trilha sonora da da melhor qualidade.
Mandou muito bem Laís.
Serve um veneno aí pra mim.

Cinema Acaba em Pizza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nubio Revoredo disse...

Só duas observações:
- Você afirma que esse disco, de 1967 tem a primeira composição do Hermeto Pascoal gravada. Porém o disco do Sambrasa Trio, de 1966, não tem "Coalhada", que foi composta por ele?

- Foram 3 as composições do Hermeto Pascoal no Live-Evil, do Miles Davis: Igrejinha, Nem um Talvez e Selim.

Parabéns pelo blog!

Um abraço,

Nubio

Thiago Pimentel disse...

Quarteto Novo em 320kbps! Aí sim.
Enquanto não arrumo o original, essa versão virá a calhar.

Parabéns pelo post.

Joel Souza disse...

Cadê o link caiu :/

Josimar Oliveira disse...

download aqui ó: http://uploaded.net/file/f5pdh91q
Créditos ao site israbox.me
Excelente texto. =]